Quando engravidei do meu primeiro filho há 7 anos atrás, uma coisa era certa, eu faria parto normal. Não tinha a menor ideia de como seria, o que podia e o que não podia e se epísio era essencial assim como escovar os dentes rs. O fato é que a gente cresce ouvindo a mãe relatando “Daí filha, o medico deu o “cortinho” e você nasceu. Então aquilo era padrão!

No meu segundo filho, eu li muito e me informei bastante, fiz meu plano de parto e descobri várias coisas que não são relevantes em um parto. Bom, mas não entrarei no mérito de falar sobre eles. Voltemos ao parto do meu primeiro filho! Como a ideia era ter meu filho de parto normal, no tempo dele, eu continuei trabalhando até no dia dele nascer. Não tínhamos carro, então criamos algumas estratégias básicas: caso o bebê resolvesse nascer de madrugada,  chamaríamos o cunhado e se fosse durante o dia, um táxi.

Ok! Dinheiro guardado, telefone de uma legião de empresas de táxi diferentes e cunhado de sobreaviso. Completadas 40+1 dia, levanto como de costume, me arrumo e olho o meu pé: “Puxa! Que pé mais inchado, parece um pão”!” Marido grita do banheiro: “ Amorrr, hoje tenho dentista, vou colocar a banda, volto mais tarde!”

Tudo certo! Saímos juntos para o trabalho, pego um ônibus lotado e um rapaz no auge dos seus 20 e poucos anos, tem um ataque súbito de sono incontrolável ao me olhar. Seguro forte no cano e sigo meu trajeto até a metade em pé. Uma senhorinha me olha sorridente e me cede o lugar fulminando o rapaz com o olhar. Chego ao serviço e aviso o chefe que tenho pré natal ao meio dia, ele diz “Beleza” e lá vou eu pra mais um dia de trabalho.

Ao meio dia saio, vou de ônibus novamente (dessa vez sentada) até a maternidade onde a médica faz o exame de toque. Cutuca daqui, cutuca dali e diz: “Esse bebê tá alto ainda, lá por sexta feira você volta (era uma terça), tem 1 cm de dilatação somente!” “Pode ir, passa na recepção e pega um atestado, vai descansar mulher!”

Pego meu atestado, saio da maternidade em direção ao ponto pensando no que fazer quando chegar em casa. Lembro que preciso comprar uma lata de tinta para terminar de pintar a parede do meu quarto. Desço do ônibus, 2 quilômetros antes de casa, compro uma lata de tinta de 3,6 litros e venho a pé, caminhando, porque o que eu mais ouvi durante a gestação foi  que  “caminhar faz beeem!”. Na metade do caminho tomo um senhor banho de chuva, mas não era chuvinha não, foi daquelas de lavar a alma. Chego em casa ensopada e vou direto tomar um banho, coloco um shorts do marido porque era o único que me servia e deito em  frente a tv.  Cochilo, quando me viro para mudar de posição escuto um “ploc” e logo penso no sofá, levanto e sinto uma água tão quentinha escorrer pelas minhas pernas.

Pronto, a bolsa rompeu! Ligo para o marido uma, duas, três vezes, nada dele atender.  Penso: “Bom, chegou a hora! Mala está pronta, dinheiro e telefone do táxi na mão. Essa desgrama de Ricardo que não me atende! Preciso falar com alguém!”  Ligo pra uma amiga do trabalho: “ Alô Cris, a bolsa estourou!” “O quêêê guria??? Você tá brincando????” “Não estou não, eu liguei pro Ricardo mas acho que ele está no dentista, eu sei o que fazer mas precisava falar com alguém!” “Ai guria, tô bem não, to passando mal, fala com a Regi!” “Oi Regi, acalma a Cris aí, a bolsa estourou mas está tudo bem, não to com dor nem nada” “Certo Martinha, faz como está combinado, fica calma e boa hora pra você! Vou ver a Cris como tá! Bjos, tchau!”

Desligo o telefone e penso: “Alguém já está avisado!”, tento ligar pro marido mais umas 10 vezes e nada. Chamo o táxi e saio lá fora. A sogra me olha e eu solto “A bolsa estourou!” pronto…. A confusão está armada.  A sogra grita a vizinha que é enfermeira pra ver não sei o que, a sogra chama a cunhada pra ligar pro ex-namorado vir de carro me levar, a vizinha chama a filha pra me dar apoio moral rsrsrs…. “está tudo bem gente, já chamei um táxi”, todas de nariz torcido porque a Marta é nojenta.

O taxi chega: “Pra onde moça?” “Para a maternidade Victor do Amaral” “Vai consultar?” “Não, a minha bolsa estourou!” “ O quêêê????” “Calma moço, pode ir tranquilo porque está tudo bem, estou sem do…r” nisso já era tarde, o motorista estava a mil por hora. Chegamos em 15 minutos, havia separado 45,00 que era o que daria o trajeto, mas paguei 15,00 porque ele não andou, ele voou.

Dou entrada na maternidade às 18h00min com 3 cm, uma maternidade lotada, muitas gestantes em trabalho de parto aguardando liberação de quarto e eu só poderia entrar com 6 cm de dilatação mesmo com bolsa rota. Aguardei conversando com outra gestante que estava ali desde o meio dia, sem almoçar com contrações fortíssimas, mas sem a dilatação necessária para entrar. Liguei pro marido mais algumas vezes e nada,  19:20 ele me liga: “Oi, 30 ligações no meu celular, estava no dentista não podia atender, que que foi? Está nascendo?” num tom de deboche, e eu respondo “Sim, está!” “Hã??? Como assim?” “Sim amor, estou na maternidade já, vim de táxi, venha pra cá!” “Mas eu tô com fome, vou em casa tomar café!” “ O quê? Vai nada, vem pra cá, tem uma panificadora ali na esquina, você come alguma coisa lá, e ah, me traz pão de queijo!”

Quarenta minutos depois ele chega com um saco cheio de pão de queijo, eu como um e ofereço a amiga grávida que não almoçou. Ela rejeita, esta cheia de dores e não consegue comer. Como meu pãozinho, tomo água, converso com uma, com outra e começo a sentir pequenas contrações. Mais algum tempo olho no relógio e esse já marca 22:25. Agora sim as contrações estão engrenando, marido me faz andar, sobe ladeira, desce ladeira, a cada contração paro, me curvo sobre a mureta, respiro e escuto: “Vem amorrr, sobeeee!”, marido lá de cima me dando aquele incentivo. Chego perto dele e pergunto, “Porque não me acompanha até lá embaixo? Não vê que estou com dor?” “Não posso amor, tenho que ficar de olho nas bolsas!”

Subo e desço várias vezes até que não aguento mais e pergunto para a recepcionista se a médica não pode me examinar e ver se já não dilatou. A recepcionista se compadece da minha “sofrência” e me leva para a médica que constata que já estou com 6 cm e já posso internar. Troco de roupa, coloco a camisola e dou as minhas coisas para o Ricardo que fica do lado de fora. Pergunto se ele não pode entrar e a enfermeira diz que não, pois está lotado e eu mesmo triste, mas com muita dor não reclamo.

Chego à sala de pré-parto e tem 17 mulheres em TP ao mesmo tempo, muitas chorando, gemendo, gritando e eu sozinha ali. Logo encontro algumas que fiz amizade na recepção e partilhamos as dores do TP e as risadas nos intervalos das contrações. Alguns médicos estudantes vieram me ver, um me perguntou se eu usava drogas, perguntei se Mac Donalds era considerado droga porque se sim eu era viciada, rimos entre uma contração e outra, pedi que ficasse comigo, me desse a mão na hora que viesse a contração, o pobrezinho ficou comigo rsrsrs hoje eu fico imaginando o que ele pensava na hora kkkkk….Fui para o chuveiro varias vezes, deixava a água cair na lombar e aquilo me aliviava muito.

Quando deu 1:15 as contrações estavam seguidas e eu quase não tinha tempo para respirar, a médica do plantão chegou e me examinou,  me disse: “Marta, está na hora, vamos?” e eu “Andando???” e ela sorrindo me disse: “Sim, é aqui do ladinho” e eu fui, mas sentindo uma vontade enorme de fazer força. Deitei-me na maca e ela pediu que eu colocasse os pés no apoio e quando viesse à vontade de fazer força que fizesse beeem devagar respirando, estranhei porque minha mãe sempre dizia que tinha que fazer muuuita força e segurar o ar….me lembrei do corte: “Dra, não me corte por favor!!!” e ela “ Marta, não vou fazer nada a não ser  que precise!”, respirei aliviada enquanto ela passava um anti séptico em mim.

Veio a contração, e a vontade de fazer força era incontrolável, respirei fundo e fiz força, senti minhas pernas tremerem e a barriga descia junto com minha força.  A médica dizia “Ótimo Marta, ele vem vindo, na próxima contração mais uma força bem grande!” E a vontade incontrolável voltou e eu empurrei, eu o sentia descendo, ele vinha pra mim, ele queria meus braços, meu aconchego e na segunda força nasceu meu príncipe, exatamente às 1:30 do dia 12 de março.

Ele não chorou, e eu só o vi de relance, a pediatra o levou e eu fiquei esperando ele voltar pra mim. Enquanto a placenta saia a doutora foi fazer o parto da amiga que não almoçou, na mesma sala que eu, na maca ao lado. O medico estudante, sabe aquele que ficou segurando minha mão? Ele retirou minha placenta e me deu 2 pontos porque tive uma pequena laceração. Enquanto ele fazia o procedimento eu escutei meu filho chorar na salinha ao lado e o choro dele me fez explodir de felicidade, uma felicidade que nunca tinha sentido antes.

Depois de 10 minutos a enfermeira me trouxe ele, o único menino em 18 partos. O bebê mais feio e mais lindo que eu já havia visto na vida, o meu bebê, o meu filho, o meu mundo!

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Fotos: Acervo Pessoal